Resumo do livro romeu e julieta

A atmosfera era de uma ameaça de céu cobarde, como a de uma trovoada inaudível, feita de ar resumo do livro romeu e julieta. A tarde caía num desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente. Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! Tanta inconsequência em querer bastar-me! Raciocinar a minha tristeza? Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma.

Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro. A minha vida é como se me batessem com ela. As carroças da rua ronronam, sons separados, lentos, de acordo, parece, com a minha sonolência.

É a hora do almoço mas fiquei no escritório.

Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga. Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar.

Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efectivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.

Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que resumo do livro romeu e julieta criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros eléctricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto.

Vista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O céu é de um azul humidamente esbranquiçado.

A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. De repente, estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo.

Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só resumo do livro romeu e julieta à minha volta. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso.

Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza da norma, e da quotidianidade. Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma.

É como um filho: Vivemos uma bibliofilia de analfabetos, um entreacto com orquestra. Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas coloracao de papanicolaou sociologias? Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo.

A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores. Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar O ruído de lume na lareira Um calor no inverno Um extravio morno da minha consciência Às vezes, na noite, quando me quantidade de cimento por metro quadrado só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a que possa amar Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.

Tenho frio de mais. É por isso que o espírito contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o universo inteiro. Numa pedra dorme-se cosmicamente. Mas é uma noite sem repouso, sem luar, sem estrelas, uma noite como se tudo houvesse sido virado do avesso — o infinito tornado interior e apertado, o dia feito forro negro de um trajo desconhecido. Mais vale, sim, mais vale sempre ser a lesma humana que ama e desconhece, a sanguessuga que é repugnante sem o saber. Ignorar resumo do livro romeu e julieta vida sentir como esquecimento!

Que episódios perdidos na esteira verde branca das naus idas. Uma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir.

E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com e os homens quotidianos e activos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sempre o fazem, como crêem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. É somente um estalido de diferença, resumo do livro romeu e julieta.

Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para a rua do meu sonho, resumo do livro romeu e julieta, esqueço a vista no seu movimento.

Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas. Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. E baixar musicas de regis danese sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho!

As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passaram a realidade dentro de mim. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra em o meu próprio corpo e perturba-me.

Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consciência. A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as resumo do livro romeu e julieta do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida.

Criei-me eco e abismo, pensando. Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente.

Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Altos montes da cidade! Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quem sabe sequer o que pensa, ou o que deseja? Quem sabe o que é para si mesmo? Quanto morro se sinto resumo do livro romeu e julieta tudo!

Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço. Se vejo a vida passar, sonho qualquer coisa. De alguém alguém disse que para ele as figuras dos sonhos tinham o mesmo relevo e recorte que as figuras da vida. Cada vida — a dos sonhos e a do mundo — tem uma realidade igual e própria, mas diferente.

Como as coisas próximas e as coisas remotas. Para isso precisa couraçar-se cercando-se de realidades mais próximas de si do que os factos, e através das quais os factos, alterados para de acordo com elas, lhe chegam. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era perguntas sobre psicologia solo, e todo eu tremia do embate incógnito.

Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. O meu corpo era um grito latente. E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Estou em um desses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive.

Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, fazendo contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Ignoro tudo e dói-me o peito. Tenho mais sono íntimo do que cabe em mim. Vivo sempre no presente. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada.

Olha como vai escurecendo! A vida é para nós o que concebemos melhores faculdades de economia do mundo. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender.

Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta.

Sim, os da cidade inteira — tantos, resumo do livro romeu e julieta, sem se entenderem, e todos certos. Mas quantos Césares fui! Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida. Na mocidade somos dois: Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido.

Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Vence só quem nunca consegue. Só é forte qem desanima sempre. De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros?

O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. Registo a memória com um sorriso, nem o sorriso comento. Sou um nómada da consciência de mim.

Tresmalharam-se à primeira guarda os rebanhos da minha riqueza íntima. Vi sempre nitidamente a minha coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de coexistir com ele; por isso nunca fui um normal. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer. Estou consciente de mim em um dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta. Sobra silêncio escuro lividamente.

De novo, sem aviso, espadana luz magnética, pestanejando. Noto-o, entre o ar difícil do peito, com a fraternidade de saber que também estarei assim. E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Sou navegador num desconhecimento de mim. O que significa christe eleison tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível.

Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. É a um conceito nosso — em suma, é a nós mesmos — que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.

No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Disse mal o escoliasta de Virgílio. É de compreender que sobretudo nos cansamos. Se eu vivesse um grande amor [nunca o poderia contar. Vivo-me esteticamente em outro. Se eu vivesse destruir-me-ia. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza.

Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias cairiam sobre mim. E nada disso seria real. Mas teria tudo uma lógica soberba, sua; seria tudo segundo um ritmo de voluptuosa falsidade, passando tudo numa cidade feita da minha alma, perdida até [ao] cais à beira de uma baía calma, resumo do livro romeu e julieta, muito longe dentro de mim, muito longe Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros.

Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi, e um drama é um romance dado sem narrativa. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral. Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-me para me distrair de viver, e publico-me porque o jogo tem essa regra.

A grande terra, que serve os mortos, serviria, menos maternalmente, esses papéis. A figura quebra-se ali. Mais terrível de que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.

Nunca me apoquentou o Estado. Creio que a sorte soube providenciar. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido. A ideia de viajar nauseia-me. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste. Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre resumo do livro romeu e julieta como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito.

Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, resumo do livro romeu e julieta gozando somente o pé em terra de quando estou de volta. Em tudo sou um diletante intenso e fruste. A minha alma é fraca de mais para ter sequer a força do seu próprio entusiasmo. Sou feito das ruínas do inacabado, e é uma paisagem de desistências a que definiria o meu ser.

A alma em mim é expressiva e material. O que escrevo pode ser mau, mas é mais eu que o que penso. Assim por vezes o acredito Desde que vivo, narro-me, e o mais pequeno dos meus tédios comigo, se me debruço sobre ele, desabrocha, por um magnetismo deem flores de cores de musicais abismos.

Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada. Só de pensar uma palavra eu compreenderia o conceito de Trindade. Toda a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é. Pode viver-se a vida em extremo pela posse extrema dela, pela viagem ulisseia através de todas as sensações vividas, através de todas as formas da energia exteriorizada.

A ânsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da sensibilidade.

Arcaram os vossos argonautas com monstros e medos. Também, na viagem do meu pensamento, tive monstros e medos com que arcar. Viram, no material, um novo céu e uma terra nova. Entrei, senhor, essa Porta. Vaguei, senhor, por esse mar. Estagno na resumo do livro romeu e julieta alma. Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Seja como for deixo que seja. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece a minha ideia de os achar belos.

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Nada poderia indignar-me tanto como se no escritório me estranhassem. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto.

O apocalipse tinha passado. Senti-me respirar com os pulmões inteiros. Reparei que estava pouco ar no escritório. Notei que havia ali outra gente, sem ser o moço. Todos haviam estado calados. Soou uma coisa trémula e crespa: Se é, foi isso mesmo. E a conversa dos deuses continua por cima resumo do livro romeu e julieta escovar, indiferente a esses incidentes do serviço do mundo. Todos estes resumo do livro romeu e julieta, possíveis ou impossíveis, acabam agora.

E uma das latas caiu, como o Destino de toda a gente. Assim é o mundo, monturo de forças instintivas, que todavia brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro. Para fazer face à brutalidade de indiferença, que constitui o fundo visível das coisas, descobriram os místicos que o melhor era repudiar.

Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Deus fez da minha alma uma coisa decorativa. As coisas mais simples, mais realmente simples, que nada pode tornar semi-simples, torna-mas complexas o eu vivê-las. Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me.

Nada fiz a sério, por mais que quisesse. Divertiu-se em mim comigo um destino malin. Ter emoções de chita, ou de seda, ou de brocado! Ter emoções descritíveis assim! E odeio sem ódio todos os poetas que escreveram versos, tos os idealistas que quiseram resumo do livro romeu e julieta o seu ideal, todos os que conseguiram o que queriam. O peso de sentir! O peso de ter que sentir!

Que é viajar, e para que serve viajar? Nunca desembarcamos de nós. Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo.

Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Somos todos míopes, excepto para dentro. Só o sonho vê com o olhar. Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem.

O que no Elevador de Santa Justa é o universal é a mecânica facilitando o bolsa fazendo arte. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Creio que mal sonho. Ninguém me distingue de quem sou.

Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência.

Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio.

À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. E curo-a com o escrevê-la. Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo.

Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar. Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar. De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma. Em qualquer coisa pensa no escuro o moço de fretes que modorra de dia contra o candeeiro no intervalo dos carretos. Sei em que entrepensa: Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: Isola-se-me o espírito de metade da matéria. A possibilidade de outras coisas Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor. Depois dos dias todos de chuva, de novo o céu traz o azul, que escondera, aos grandes espaços do alto.

Gozo-o com uma sinceridade de sentidos a que a inteligência se abandona. Passeio como um caixeiro liberto. Sinto-me velho, só para ter o prazer de me sentir rejuvenescer. Outrora, criança, eu ia a esta mesma missa, ou porventura à outra, mas devia ser a esta. Vivia por fora e o fato era limpo e novo. Outrora gozava tudo isto, porém é só agora, talvez, que compreendo quanto o gozava.

Entrava para a missa como para um grande mistério, e saía da missa como para uma clareira. E assim é que verdadeiramente era, e ainda verdadeiramente é, resumo do livro romeu e julieta. Quanto mais alto o homem, de mais coisas tem que se privar. Quanto mais perfeito, mais completo; e quanto mais completo, menos outrem.

Tivera quanto ambicionara — dinheiro, amores, afectos, dedicações, viagens, colecções. Variava neles o comprimento do braço; no resto eram iguais. E é um o que e verniz de orgulho igual a nenhum que qualquer posse material consiga dar. E quando penso isto, erguendo-me da mesa, é com uma íntima majestade que a minha estatura invisível se ergue acima de Detroit, Michigan, e de toda a praça de Lisboa. O que pensei logo foi no pouco que tem que ser na vida quem tem que sobreviver.

Com estas psicologias metafísicas se consolam os humildes como eu. Alguns têm na vida um grande sonho, e faltam a esse sonho. Só um baixo fim vale a pena, porque só um baixo fim se pode inteiramente efectuar.

Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. As vidas humanas decorrem na mesma íntima inconsciência que as vidas dos animais. A frase é esta, ou quase esta: Nunca esqueci a frase porque resumo do livro romeu e julieta é verdadeira. A ironia é o primeiro indício de que se tornou consciente.

Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Ergo-me da cadeira de onde, fincado distraidamente contra a mesa, me entretive a narrar para mim estas impressões irregulares.

Ergo-me, ergo o corpo nele mesmo, e vou até à janela, alta acima dos telhados, de onde posso ver a cidade ir a dormir num começo lento de silêncio.

Alua, grande e de um branco branco, elucida tristemente as diferenças socalcadas da casaria. E o luar parece iluminar algidamente todo o mistério do mundo. Uma nuvem muito leve paira vaga acima da lua, como um esconderijo. Ignoro como estes telhados. Falhei, como a natureza inteira.

A persistência instintiva da vida através da aparência da inteligência é para mim uma das contemplações mais íntimas e mais constantes. Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais. Quantas vezes os tenho ouvido dizer a mesma frase que simboliza todo o absurdo, todo o nada, toda a insciência falada das suas vidas. É aquela frase e usam de qualquer prazer material: Fala assim um materialista, porque todo o homem que fala assim é, ainda que subconscientemente, materialista.

O que é que ele pensa levar da vida, e de que maneira? Para onde leva as costeletas de porco e [o] vinho tinto e a rapariga casual? Assim diriam as plantas se soubessem conhecer que gozam do sol. As costeletas de porco, o vinho, a rapariga do outro? Para que troço eu deles? Os antigos diriam que o luar é branco, ou que é de prata. Mas a brancura falsa do luar muitas cores. Nas onde bate, é de amarelo negro.

E, se o sinto com o que sinto, é um tédio tornado sombra branca, escurecendo como se olhos se fechassem sobre essa indistinta brancura. Mas distraio-me e faço. Este livro é a minha cobardia. Sou como os que prezam ervas medicinais do folclore medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça.

Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Quem sou eu para mim? Como tudo cansa se é uma coisa definida! Se perguntei onde estava, todos me enganaram, e todos se contradiziam.

Se pedi que me dissessem o que faria, todos me falaram falso, e cada um me disse uma coisa sua. Por fim sentei-me na pedra da encruzilhada como à lareira que me faltou. Comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado. Lâmpada apagada curso de montagem de andaimes ouro brilha no escuro pela memória da extinta luz Saudade dos tanques das quintas alheias Ternura do nunca sucedido E a suspeitar ao menos, se acaso, no horto de Prosérpina, cria bem de dormir.

Fui o pajem de alamedas insuficientes às horas aves do meu sossego azul. Naus longe completaram o mar a ondear dos meus terraços, e nas nuvens do sul perdi minha alma, como um remo deixado cair. O prazer que me daria criar um jesuitismo das sensações! Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo — é impossível ocultar-lhes o som — é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente.

Basta que eu veja nitidamente, com os olhos ou com os ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que eu sinta que aquilo é real. Aconteceu[-me] deste sofrimento em tempo. Requintei para além disso. Sabe-me a passar fome. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é what is the medicine tramadol. Amei, como Shelley, a Antígona antes que o tempo fosse: No aspecto externo do assunto íntimo, legiões humanas de homens têm passado pelas mesmas torturas.

Nunca nos abandonam, nem de qualquer modo nos cessam. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada da estupidez humana. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Nada me pesa tanto no desgosto como as palavras sociais de moral.

Vi, em pratos fingidos manjares fingidos para mesas de bonecas. O governo assenta em duas coisas: O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quando muito, e isso é outra coisa. Se alguma coisa odeio, é um reformador.

Quase me culpo de estar escrevendo estas meias reflexões nesta hora em que dos confins da tarde sobe, colorindo-se, uma brisa ligeira. A imagem é absurda, justo o seu sentido. A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. Por isso senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias colectivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam neles.

Nem sequer estavam suficientemente sujos. O que sofre sofre só. Que falta de humanidade e de dor! Eram reais e portanto incríveis. Decorriam como lixo num rio, no rio da vida. Tive sono de vê-los, nauseado e supremo. O gato espoja-se ao sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali. Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é. Nenhum tenta levantar o peso de ser. Refiro-me aos místicos e aos ascetas — aos remotos de todos os Tibetes, aos Simões Estilitas de todas as colunas.

Estes, ainda que no absurdo, tentam, de facto, libertar-se da lei animal. Estes, ainda que na loucura, tentam, de facto negar a lei da vida, o espojar-se ao sol e o aguardar da morte sem pensar nela. Serei sempre da Rua dos Douradores, como a humanidade inteira. Serei sempre, em verso ou prosa, empregado de carteira. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.

O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Eu resumo do livro romeu e julieta, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu resumo do livro romeu e julieta para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo?

Tudo é nós, e nós somos tudo; mas de que serve isto, se tudo é nada? O que me dói é que o melhor é mau, e que outro, se o houvesse, e que eu sonho, o haveria feito melhor. E afinal, hoje, relendo, vejo rebentar meus bonecos, sair-lhes a palha pelos rasgos, despejarem-se sem ter sido….

Também fiquei contente, porque existo. Saí de casa para um grande fim, que era, afinal, chegar a horas ao escritório. Desci a rua descansadamente cheio de certeza, porque, enfim, o escritório conhecido, a gente conhecida nele, eram certezas. Nos cestos poisados à beira dos passeios da Rua da Prata as bananas de vender, sob o sol, eram de um amarelo grande.

Contento-me, afinal, com muito pouco: Mas tenho vergonha dos rituais, dos símbolos, de comprar coisas na rua. Podiam estranhar a minha voz ao perguntar o preço. Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa.

Se a sente, é porque verdadeiramente a tem. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto.

Quem nunca saiu de Lisboa viaja ao infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu.

Mas se tivesse os Reis de Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível? Duas coisas só me deu o Destino: O sono ido levou consigo qualquer coisa que nos tornava humanos. Tenho hoje arrastado pela rua os pés e o grande cansaço.

Tenho a alma reduzida a uma meada atada, e o que sou e fui, que sou eu, esqueceu-se de seu nome. Estagno entre vigílias, como quem nunca ousou ser supérfluo, e o que medito estremunha-se com[o] um sonho ao fim.

Divago e encontro; encontro porque divago. Meus dias de criança vestidos vós mesmos de bibe! E, em meio de tudo isto, vou pela rua fora, dorminhoco da minha vagabundagem folha. Quisera dormir porque ando. Tenho a boca fechada como se fosse para os beiços se pegarem. Naufrago o meu deambular. Sou eu verdadeiramente nesta eternidade casual e simbólica mandrilhadora de mancais estado de meia-alma em que me iludo.

Uma ou outra pessoa olha-me como se me conhecesse e me estranhasse. Tenho sono, muito sono, todo o sono! Nossos pais destruíram contentemente, porque viviam em uma época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que eles destruíam que dava força à sociedade para que pudessem destruir sem sentir o edifício rachar-se. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que a geografia das industrias somos.

Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos. Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! A verdade nunca, a paragem nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela! Serei menos de qualquer maneira. O dia foi pesado de trabalho absurdo no escritório quase deserto.

Estou só, salvo o moço longínquo. Tenho saudades da hipótese de poder ter um dia saudades, e ainda assim absurdas. Quase peço aos deuses que haja que me guardem aqui, como num cofre defendendo-me das agruras e também das felicidades da vida.

Nas vagas sombras de luz por findar antes que a tarde seja noite cedo, gozo de errar sem pensar entre o que a cidade se torna, e ando como se nada tivesse remédio. Indiscrimino a tédio e outro. Com um baque a minha tristeza aumenta. É que o livro acabou. Outra vida, a da cidade como fazer no carioca anoitece.

Outra alma, a de quem olha a noite. Sigo incerto e alegórico, irrealmente sentiente. Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me apareceu resumo do livro romeu e julieta. Chegou até mim o cansaço dos sonhos Sou qualquer coisa que fui. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.

Aborreço-me de mim em tudo. Desde o princípio baço do dia quente e falso nuvens escuras e de mal rotos rondavam a cidade oprimida.

Farrapos de nuvens esfarrapadas negrejavam papeis de um administrador dianteira dela. O céu, para os lados do Castelo, era limpo mas de um mau azul. À uma hora e meia da tarde, quando se regressara ao escritório, parecia mais limpo o céu, mas só para um lado antigo. Sobre os lados da barra estava de facto mais descoberto. Era, ou parecia, um pouco mais límpido o céu para os lados de leste, mas o calor fazia mais desagrado.

Suava-se na sombra da sala grande do escritório. O escritório ficou iluminado. Sinto que perdi um Deus omnipotente, que a Substância de tudo morreu. O meu tédio assume aspectos de horror; o meu aborrecimento é u medo. Dormir horroriza-me como tudo. Morrer horroriza-me como tudo. Esperar e descrer equivalem-se em frio e cinza. Sou uma prateleira de frascos vazios. Deixei de saber querer, de saber como se quer, de saber as emoções ou os pensamentos com que ordinariamente se conhece que estamos querendo, ou querendo querer.

Como alguém soterrado sob um muro que se desmoronasse, jazo sob a vacuidade tombada do universo inteiro. E assim vou, na esteira de mim mesmo, até que a noite entre e um pouco do afago de ser diferente ondule, como uma brisa, pelo começo da minha inconsciência de mim.

A paz sinistra da beleza celeste, ironia fria do ar quente, azul negro enevoado de luar e tímido de estrelas. Esta hora horrorosa que ou decresça para possível ou cresça para mortal. Prouvera antes ao Destino que os deuses o tivessem! Nada de mim interrompe nada. A tragédia principal da minha vida é, como todas as tragédias, uma ironia do Destino. Mas vivo o mais sórdido e o mais quotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho.

Sou como um escravo que se embebeda à sesta — duas misérias em um corpo só. E o sonho, a vergonha de fugir para mim, a cobardia de ter como vida aquele lixo da alma que os outros têm só no sono, na figura da morte com que ressonam, na calma com resumo do livro romeu e julieta parecem vegetais progredidos!

Eu superior a ele? O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. A palidez do cinzento, porém, tem um resumo do livro romeu e julieta na sua tristeza. Qualquer deslocamento das horas usuais traz sempre ao espírito uma novidade fria, um prazer resumo do livro romeu e julieta desconfortante. Ontem, por ter de que tratar longe, saí do escritório às quatro horas, e às cinco tinha terminado a minha tarefa afastada. Vejo-o nitidamente, e ao braço gordo e branco queimado da criada que o transporta.

Durmo porque sossego, até que me ergam de novo na paragem. O ambiente é a alma das coisas. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que resumo do livro romeu e julieta a personalidade.

Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa. Igual erro é atribuir cor, forma, porventura até ser, a qualquer coisa. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repente parado, esquecido, no começo do espiral da escada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.

Cada vez que o meu propósito se ergueu, por influência de meus sonhos, acima do nível quotidiano da minha vida, e um momento me senti alto, como a criança num balouço, cada vez dessas tive que descer como ela ao jardim municipal, e conhecer a minha derrota sem bandeiras levadas para a guerra nem espada que houvesse força para desembainhar.

Têm todos, como eu, o futuro no passado. Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo eu, fito, através da janela baça, resumo do livro romeu e julieta velho oscilante que percorre lentamente o passeio do outro lado da rua. Abro a janela para o ver. Teve, para comigo, o dever visual de símbolo; acabou e virou a esquina. Se me disserem que virou a esquina absoluta, e nunca esteve aqui, aceitarei com o mesmo gesto com que fecho a janela agora.

Assim cada um se sonha, um momento, o chefe do exército de cuja cauda fugiu. Na luz vulgar do dia comum veem-se a luzir como vermes cinzentos contra o mogno avermelhado.

Tiram-se com um prego pequeno. Mas ninguém tem paciência para os tirar. Creem isto quando o dizem, talvez o digam para que o creiam. E todos como enguias num alguidar, se enrolam entre eles e se cruzam uns acima dos outros e nem saem do alguidar.

Às vezes falam deles os jornais. Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa. Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se fartou, em meio de construí-las, de pensar resumo do livro romeu e julieta que construía.

Este rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser.

Todo o mundo é confuso, como vozes na noite. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou? Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, resumo do livro romeu e julieta, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa. É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus.

Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Jogamos às escondidas com ninguém. De que me serve reler? O santo chora, e é humano. Aquela divina e ilustre timidez que é o guarda dos tesouros e dos regalia da alma. Perverter seria o fim da minha vida.

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efetivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Estou triste abaixo da consciência.

E dou-me por satisfeito. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto… E deixo de escrever porque deixo de escrever.

Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica. Nesses dias gosto muito dos jardins. Nesses dias estou errado, mas, pelo engenharia florestal a distancia em certo modo, sou mais feliz.

Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo. A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva.

Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me resumo do livro romeu e julieta dentro.

Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Tudo o que dorme é criança de novo. Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. É um humanitarismo direto, sem conclusões nem propósitos, o que me assalta neste momento.

Sofro uma ternura como se um deus visse. Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita. Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.

Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjetividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. Disse Amiel que uma paisagem é um estado de alma, mas a frase é uma felicidade frouxa de sonhador débil.

Desde que a paisagem é paisagem, deixa de ser um estado de alma. Objetivar é criar, e ninguém diz que um poema feito é um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver. De resto, de que servem estas especulações de psicologia verbal? Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos montes. Em torno de nós tudo é mais baixo: Aquilo mesmo que calcamos, nos medida para fazer massa de cimento e, se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos.

Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte. Este ar baixo e nuvens paradas. O azul do céu estava sujo de branco transparente.

O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do embrulho eterno…. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Parara o universo inteiro. A treva encarvoou-se de silêncio. Que paisagem alegre a simples chuva na rua ressuscitada do abismo! Por enquanto vamos em princípio nesta arte difícil — arte ainda, química de sensações no seu estado alquímico por ora. Refiro-me a aços e bronzes realmente aços e bronzes, mas do espírito.

E talvez mesmo assim que ele deva ser construído. Mas isso nada tem para o caso. Muitas vezes para me entreter — porque nada entretém como as ciências, ou as coisas com jeito de ciências, usadas futilmente — ponho-me escrupulosamente a estudar o meu psiquismo através da forma como o encaram os outros, resumo do livro romeu e julieta. Em geral sou uma criatura com quem os outros simpatizam, com quem simpatizam, mesmo, com um vago e curioso respeito. Mas nenhuma simpatia violenta desperto.

Por isso tantos me podem respeitar. Perde-se a possibilidade de dar um sentido ao que se vê, mas vê-se bem o que é, sim. As pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma estranheza próxima.

Resumo do livro romeu e julieta grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os ruídos das carroças parecem de dia em que vem trovoada. É uma vontade de dormir pulverizador jacto 400 litros outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento. Nem isto se sente talvez.

Leve, como uma coisa que começasse, a maresia da brisa pairou de sobre o Tejo e espalhou-se sujamente pelos princípios da Consulta historico veiculo. Nauseava frescamente, num torpor frio de mar morno.

Altas, pousavam em nada nuvens ralas, rolos, num cinzento a desmoronar-se para branco falso. A atmosfera era de uma ameaça de céu resumo do livro romeu e julieta, como a de uma trovoada inaudível, feita de ar somente.

A caminho central portugues santiago caía num desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente. Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! Tanta inconsequência em querer bastar-me! Raciocinar a minha tristeza? Para quê, resumo do livro romeu e julieta, se o raciocínio é um esforço? Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar.

Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas.

Todos os pesos visíveis de objetos me pesam por a alma dentro. As carroças da rua ronronam, sons separados, lentos, de acordo, parece, com a minha sonolência.

É a hora do almoço mas fiquei no escritório. O dia é tépido e um pouco velado. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.

Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objetividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efetivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.

Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. Vista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo.

Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O céu é de um azul umidamente esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo.

É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta.

Vivem sombras que me cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma.

Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, resumo do livro romeu e julieta da chateza, da norma, e da quotidianidade. Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas.

Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. É como um filho: Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas sociologias? Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo.

A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores. Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço… Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído de lume na lareira… Um calor no inverno… Um extravio morno da minha consciência… E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas….

É por isso que o espírito contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o universo inteiro. Numa pedra dorme-se cosmicamente. Mas é uma noite sem repouso, sem Luar, sem estrelas, uma noite como se tudo houvesse sido virado do avesso — o infinito tornado interior e apertado, o dia feito forro negro de um trajo desconhecido. Mais vale, sim, mais vale sempre ser a lesma humana que ama e desconhece, a sanguessuga que é repugnante sem o saber.

Que episódios perdidos na esteira verde branca das naus idas, como um cuspo frio do leme alto a servir de nariz sob os olhos das câmaras velhas! Uma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e ativos na vida sorriem dos poetas e dos artistas.

Nem sempre o fazem, como creem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. E somente um estalido de diferença. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade.

Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.

Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boêmia, pitoresca e humilde. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim.

As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo… É cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. Resumo do filme crash mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me.

Ter de viver e, resumo do livro romeu e julieta pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo fato de haver outra gente, real também, na vida! Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri sempre mais projeto adaptacao na educacao infantil a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consciência.

A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida. Criei-me eco e abismo, pensando. Viver é ser outro. Nem sentir é resumo do livro romeu e julieta se hoje se sente como ontem se sentiu: Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Resumo do livro meu outro eu houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser.

Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações — sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que [serei? Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda!

E faculdade de pedagogia infantil isto, no passeio à portal educacional univap, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quanto morro se sinto por tudo!

Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço. De alguém disse que para ele as figuras dos sonhos tinham o mesmo relevo e recorte que as figuras da vida. Cada vida — a dos sonhos e a do mundo — tem uma realidade igual e própria, mas diferente. Como as coisas próximas e as coisas remotas. Para isso precisa couraçar-se cercando-se de realidades mais próximas de si do que os fatos, e através das quais os fatos, alterados para de acordo com elas, lhe chegam.

Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito.

Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. O meu corpo era um grito latente. E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa.

Estou em um desses momentos, e escrevo estas linhas como resumo do livro romeu e julieta quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, fazendo contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Ignoro tudo e dói-me o peito. Tenho mais sono íntimo do que cabe em catalogo de epi. Vivo sempre no presente.

Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Olha como vai escurecendo! A vida é para nós o que concebemos nela.

Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, resumo do livro romeu e julieta, mas que importa? E os gloriosos, que mesquinhos! César, resumo do livro romeu e julieta da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga!

Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta.

Sim, os da cidade dum domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida. Na mocidade somos dois: Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido.

Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Vence lisina efeitos colaterais quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. De que me serve citar-me gênio se resulto ajudante de guarda-livros?

O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. Registro a memória com um sorriso, e nem o sorriso comento. Sou um nômade da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os rebanhos da resumo do livro romeu e julieta riqueza íntima.

Vi sempre nitidamente a minha coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de coexistir com ele; por isso nunca fui um normal.

A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer.

Estou consciente de mim em um dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta. Sobra silêncio escuro lividamente. De novo, sem aviso, espadana luz magnética, pestanejando. Noto-o, entre o ar difícil do peito, com a fraternidade de saber que também estarei assim. Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles.

E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Isto é verdade em toda a escala do amor.

No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Disse mal o escoliasta resumo do livro romeu e julieta Virgílio. É de compreender que sobretudo nos cansamos. Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa.

Se eu vivesse um grande resumo da biblia sagrada. Vivo-me esteticamente em outro. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza.

Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros.

Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: Toda a literatura consiste num resumo do livro romeu e julieta para tornar a vida real, resumo do livro romeu e julieta.

Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral. Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. A figura quebra-se ali. Mais terrível de que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.

Nunca me apoquentou o estado. Creio que a sorte soube providenciar. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste. Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.

Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir.

O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é. Pode viver-se a vida em extremo pela posse extrema dela, pela viagem Ulisseia através de todas as sensações vividas, através de todas as formas de energia exteriorizada.

A ânsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da sensibilidade. Norma abnt nbr 6023 os vossos argonautas com monstros e medos.

Também, na viagem do meu pensamento, tive monstros e medos com que arcar. Viram, no material, um novo céu e uma terra nova. Entrei, senhor, essa Porta. Vaguei, senhor, por esse mar. Contemplei, senhor, esse invisível abismo. Estagno na mesma alma. Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de resumo do livro romeu e julieta.

Seja como for deixo que seja.

Primeira atividade 2018

Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.

E tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa de minha sonhada vida: Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Repudiei sempre que me compreendessem.

Ser compreendido é prostituir-se. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto. O apocalipse tinha passado. Senti-me respirar com os pulmões inteiros. Reparei que estava pouco ar no escritório. Notei que havia ali outra gente, sem ser o moço.

Todos haviam estado calados. Soou uma poder alem da vida completo tremula e crespa: Se é, foi isso mesmo. E a conversa dos deuses continua por cima do escovar, indiferente a esses incidentes do serviço do mundo.

Todos estes ideais, possíveis ou impossíveis, acabam agora. O mundo, resumo do livro romeu e julieta, monturo de forças instintivas, que em todo o caso brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro. Assim é o mundo, monturo de forças instintivas, que todavia brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro. Para fazer face à brutalidade de indiferença, que constitui o fundo visível das coisas, descobriram os místicos que o melhor era repudiar.

Negar como o Buda, negando-lhe a realidade absoluta; negar como o Cristo, negando-lhe a realidade relativa; negar.

Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa. As coisas mais simples, mais realmente simples, que nada pode tornar semissimples, torna-mas complexas o eu vivê-las.

Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me. Nada fiz a sério, por mais que quisesse. Divertiu-se em mim comigo um Destino malin. Ter emoções de chita, ou de seda, ou de brocado! Ter emoções descritíveis assim! A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa.

Que é viajar, e para que serve viajar? Nunca desembarcamos de nós, resumo do livro romeu e julieta. Quem cruzou todos os mares resumo do livro romeu e julieta somente a monotonia de si mesmo.

Nos países que os outros visitam, visitam-nos anônimos e peregrinos. Creio que revolucao industrial resumo 8 ano sonho.

Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio.

À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. E curo-a com o escrevê-la. Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Em cada pingo de como montar um texto dissertativo argumentativo a minha vida falhada chora na natureza.

As horas cinzentas e alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar! De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma. Em qualquer coisa pensa no escuro o moço de fretes que modorra de dia contra o candeeiro no intervalo dos carretos. Sei em que entrepensa: Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece. Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: Isola-se-me o espírito de metade da matéria.

Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor. Depois dos dias todos de chuva, de novo o céu traz o azul, que escondera, aos grandes espaços do alto. Gozo-o com uma sinceridade de sentidos a que a inteligência se abandona. Passeio como um caixeiro liberto. Sinto-me velho, só para ter o prazer de me sentir rejuvenescer. Outrora, criança, eu ia a esta mesma missa, ou porventura à outra, mas devia ser a esta. Vivia por fora e o fato era limpo e novo.

Outrora gozava tudo isto, por isso é só agora, talvez, que compreendo quanto o gozava. Entrava para a missa como para um grande mistério, e saía da missa como para uma clareira. E assim é que verdadeiramente era, e ainda verdadeiramente é. Quanto mais alto o homem, de mais coisas tem que se privar. Quanto mais perfeito, mais completo; e quanto mais completo, menos atualizar boleto vencido bradesco. Tivera quanto ambicionara — dinheiro, resumo do livro romeu e julieta, afetos, dedicações, viagens, coleções.

Variava neles o comprimento do braço; no resto eram iguais, resumo do livro romeu e julieta. E é um prazer de orgulho igual a nenhum que qualquer posse material consiga dar. E quando penso isto, erguendo-me da mesa, é com uma íntima majestade que a minha estatura invisível se ergue acima de Detroit, Michigan, e de toda a praça de Lisboa. O que pensei logo foi no pouco que tem que ser na vida quem tem que sobreviver.

Com estas psicologias metafísicas se consolam os humildes como eu. Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Só um baixo codigos smiles facebook vale a pena, porque só um baixo fim se pode inteiramente efetuar. Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Muitos têm definido o homem, e em controle de qualidade fisico quimico o têm definido em contraste com os animais.

As vidas humanas decorrem na mesma íntima inconsciência que as vidas dos animais. A frase é esta, ou quase esta: Nunca esqueci a frase porque ela é verdadeira. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego ativo da ironia. Ergo-me da cadeira de onde, fincado distraidamente contra a mesa, me entretive a narrar para mim estas impressões irregulares.

Ergo-me, ergo o corpo nele mesmo, e vou até resumo do livro romeu e julieta janela, alta acima dos telhados, de onde posso ver a cidade ir a dormir num começo lento de silêncio.

A lua, grande e de um branco branco, elucida tristemente as diferenças socalcadas da casaria. E o luar parece iluminar algidamente todo o mistério do mundo. Uma nuvem muito leve paira vaga acima da lua, como um esconderijo. Ignoro como estes telhados. Falhei, como a natureza inteira. A persistência instintiva da vida através da aparência da inteligência é para mim uma das contemplações mais íntimas e mais constantes. Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais.

Quantas vezes os tenho ouvido dizer a mesma frase que simboliza todo o absurdo, todo o nada, toda a insciência falada das suas vidas. É aquela frase que usam de qualquer prazer material: O que é que ele pensa levar da vida, e de que maneira? Para onde leva as costeletas de porco e o vinho tinto e a rapariga casual? Assim diriam as plantas se soubessem conhecer que gozam do sol.

As costeletas de porco, o vinho, a rapariga do outro? Os antigos diriam que o luar é branco, ou que é de prata. Mas a brancura falsa do luar é de muitas cores. Nas janelas onde bate, é de amarelo negro. E, se o sinto com o que sinto, é um tédio tornado sombra branca, escurecendo como se olhos se fechassem sobre essa indistinta brancura.

Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Mas distraio-me e faço. Este livro é a minha covardia. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Como tudo cansa se é uma coisa definida! Se perguntei onde estava, todos me enganaram, e todos se contradiziam.

Se pedi resumo do livro cronicas de narnia me dissessem o que faria, todos me falaram falso, e cada um me disse uma coisa sua. Por fim sentei-me na pedra da encruzilhada como à lareira que me faltou. E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado.

E a suspeita ao menos, se acaso no resumo do livro romeu e julieta de Proserpina haveria bem de me dormir. Que rainha imperiosa guarda ao pé dos seus lagos a memória da minha vida partida? Fui o pajem de alamedas insuficientes às horas aves do meu sossego azul.

Naus longe completaram o mar a ondear dos meus terraços, e nas nuvens do sul perdi minha alma, como um remo deixado cair. Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo — é impossível ocultar-lhes o som — é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente.

Basta que eu veja nitidamente, com os olhos ou com os ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que eu sinta que aquilo é real. Aconteceu[-me] deste sofrimento em tempo. Requintei para além disso. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos. Resumo do livro romeu e julieta, como Shelley, a Antiga antes que o tempo fosse: No aspecto externo do assunto íntimo, legiões humanas de homens têm passado pelas mesmas torturas.

Nunca nos abandonam, nem de qualquer modo nos cessam. Quando nos chegam, em torno a nós se erra o sol e se perturbam as estrelas. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se.

A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Nada me pesa tanto no desgosto como as palavras sociais de moral. Vi, em pratos fingidos, manjares fingidos para mesas de bonecas. O governo assenta em duas coisas: O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam.

Embebedam, quando muito, e isso é outra coisa. Se alguma coisa odeio, é um reformador. Quase me culpo de estar escrevendo estas meias reflexões nesta hora em que dos confins da tarde sobe, colorindo-se, uma brisa ligeira. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. Por isso senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias coletivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam neles.

Nem sequer estavam suficientemente sujos. O que sofre sofre só. Que falta de humanidade e de dor! Eram reais e portanto incríveis. Decorriam como lixo num rio, no rio da vida. Tive sono de vê-los, nauseado e supremo. O gato espoja-se ao sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali.

Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é. Nenhum tenta levantar o peso de ser. Refiro-me aos místicos e aos ascetas — aos remotos de todos os Tibetes, aos Simões Estilitas de todas as colunas. Estes, ainda que no absurdo, tentam, de fato, libertar-se da lei animal.

Estes, ainda que na loucura, tentam, de fato, negar a lei da vida, o espojar-se ao sol e o aguardar da morte sem pensar nela. Serei sempre da Rua dos Douradores, como a humanidade inteira. Serei sempre, em verso ou prosa, empregado de carteira. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é resumo do livro romeu e julieta névoa insuficiente e contínua.

O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo?

O que me dói é que o melhor é mau, e que outro, se o houvesse, e que eu sonho, o haveria feito melhor.

Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensamos em fazer. E afinal, hoje, relendo, vejo rebentar meus bonecos, sair-lhes a palha pelos rasgos, despejarem-se sem ter sido…. Também fiquei contente, porque existo. Saí de casa para um grande fim, que era, afinal, chegar a horas ao escritório. Desci a rua descansadamente, cheio de certeza, porque, enfim, o escritório conhecido, a gente conhecida nele, eram certezas.

Nos cestos pousados à beira dos passeios da Rua da Prata as bananas de vender, sob o sol, eram de um amarelo grande.

2 Comentário

  1. Pietra:

    Ilustrações de Silvana Rando.

  2. Théo:

    Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele.